“A ARTE NOBRE”, continuação. Parte 7. O GRITO Dois anos depois do desastre, os pinos ainda no corpo. Como duas agulhas de tricô no braço esquerdo e ainda pequena saliência, a ponta curva sob a pele de um metal nobre. No ambulatório do hospital o dr. K pega instrumento, tipo alicate. Mórbida tranquilidade, depois de leve corte na dormência, sem que eu sentisse qualquer dorzinha, começa a puxar o ferrinho de uns vinte centímetros. Aí, sinto alguma dor, meu corpo na horizontalidade da alva cama de rodas. Ele para. Fala com a mulher enfermeira, rosto sem aparentar emoções. Eu deitado, acho que num relaxamento tenso. Ouço o som metálico de instrumentos, como esses de mala de lata das oficinas mecânicas. O dr. K pega alicate, dos maiores. Quase com o joelho em cima do meu braço, sem olhar imagino o gesto. Prende e puxa o pino, de uma só vez. É quando uso, sem nenhum pudor, o meu grito de judoca, acredito que a estremecer as paredes do nosocômio. Se esta palavra se adequa mais para hospital de loucos, não há dúvida de que o dr. K e aquela representante do holocausto, ensandeceram. Preparei um segundo berro, quando o doutor Fantástico, sem os tiques do personagem de Kubrick, alavancou o outro pino. O som da minha voz, ainda mais estridente. (Continua)
Escrito por Euclides Sandoval às 06h49
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"A ARTE NOBRE". Final do sonho do cavalo.
Cristóforo sente que, ao dramatizar o seu sonho, influenciou o processo de mudança, pelo qual está passando – o da individuação. É quando a semente está virando árvore adulta. Ele se vê engatinhando na compreensão de um esquema em que atitudes e comportamentos vão se esclarecendo, como no agora vivenciado sob a batuta do amigo Aldo. Símbolos não se definem, mas ajudam a explicitar situações nebulosas. Carregam imensa energia que extrapola conceitos. Sonhos, por vezes muito fragmentados, valem registro logo que se acorda. Para lembrá-los nos treinamos, prolongando o estado de vigília. Aquele momento em que nada está muito claro. Na sequência onírica pode-se perceber uma tendência autorreguladora ou dirigida, a pessoa melhor se percebendo. Aldo acrescenta: - O homem assassino é a sombra de cada um e de nós próprios. Forças bloqueadoras do processo de individuação. O homem natural (moço cavaleiro) pode ser morto pelo homem da carabina, esta, produto da sombra humana. Ela até pode ser útil, salvando da fome e da morte. Nada é um mal ou bem total. Escrevo. Borboleta na telinha. Aterrissa aí. O que ela deseja dizer?
Escrito por Euclides Sandoval às 09h16
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Destaque para o Garatuja e suas escolhas

Escrito por Euclides Sandoval às 08h50
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Dos Cadernos
Leio Silviano Santiago, suplemento "Mais!" de domingo último (20/12/2009). Ele fala de Gilda de Mello e Souza. Fui aluno dela, na USP. "Confiança no pensamento como percurso e não como ponto de chegada". Cita Gilda, professora de Estética, dona de uma concepção aberta. Obra que Silviano comenta: "Exercícios de Leitura", editora Duas Cidades. No mesmo "Mais!", outra admiração: Keith Jarrett, aquele pianista que improvisa nos concertos. "A música me salvou", confessa. Ele se refere a um momento de inércia mental. Abalado pela separação conjugal sofria de fadiga crônica. Eu costumava abrir workshops e aulas com o piano de Keith.
Escrito por Euclides Sandoval às 08h04
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Cavalo/sonho. Pintura que fiz, anos 80.
Escrito por Euclides Sandoval às 07h49
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Continuação de “A ARTE NOBRE”, livro de Euclides Sandoval. Parte 5 de CAVALO, ÁRVORE E PONTE. - No sonho surge, agora que você dialoga com ele, a totalidade absoluta de sua mente. É anunciada. Certo que não aparece com toda a pujança, para o seu próprio bem. A mente é frágil para comportá-la. O crescimento pessoal não depende de esforço voluntário direto, mas de uma atitude de abertura. Ele acontece em “estalos”. É involuntário e natural. Apenas podemos descobrir como influenciá-lo. Cristóforo – O cavalo... Aldo – É o conteúdo inconsciente. Quem o cavalga – falo do animal do início do sonho –, é o centro do inconsciente, a ponte que liga a grande esfera inconsciente ao frágil Ego (consciência). O átrio é a mente, psique; o Ego, observador do crime. Cristóforo – A ponte... Aldo – É a totalidade absoluta da mente. Nós chegamos a ela ao crescer, na fase em que amadurecemos. O crescimento é involuntário e natural. O que podemos é descobrir como influenciá-lo. Isso já uma boa coisa. O jovem cavaleiro, a princípio inseguro, monta o inconsciente. O jovem cavaleiro é a ponte. O cavalo do átrio é a mente que pode dizer: “Sou a consciência”. A ponte é que torna a gente consciente do perigo, daí precisarmos dela. Se estamos fugindo, o Ego já não está mais presente em sua plenitude. O moço é, a um tempo, o núcleo da consciência, a própria consciência, as forças inconscientes, a esfera inteira da mente, algo muito maior do que a consciência. (Continua)
Escrito por Euclides Sandoval às 06h53
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Na correspondência, através do blog de Cristóforo, Daniel Choma solicitou uma entrevista com o amigo do protagonista, Aldo Costamares. Vamos a ela. - Sei que você deixou a psicanálise freudiana. Esse desencanto ocorreu como? - Não se pode desprezar o corpo. O próprio Freud dizia que cada milímetro da pele pensa. Dar as costas para a pessoa, prendendo-se ao verbal, é um contracenso. O corpo é abrangente com relação à mente. - Cristóforo, seu amigo, sempre diz isso. - A revolução só acontece se você age. Isso soa óbvio, mas no começo é a ação. - Você é mais pelo movimento ou pelo risco? - Sou pelo risco. - Isso tem a ver com as prisões e torturas que sofreu durante os chamados “anos de chumbo”? - De um e do outro lado, o que prevalecia era a ação. Inclusive o meu antissistema de vida nasceu da construção de mandalas. Isso é corpo em movimento. - Como assim? - Com a ponta seca do compasso, deitado em uma rede, sem medida, eu desenhava mandalas. Aqueles movimentos, abrindo e fechando... Depois foi só colocar palavras, lado da prática e da teoria. Surgiram poliedros e esquemas, abrangendo tudo num sistema assistemático. - Entendo que o seu forte é o paradoxo. - Pois é assim que a vida flui. Mas se a gente se estrutura na polaridade do bem e do mal, da natureza e da cultura, da figura e do fundo... isso não basta. É preciso que, em cada momento, se localize o paradigma... nos opostos. É o fluir do yin e do yang. - Não se pode cair num maniqueísmo? - Só se você ver o paradigma como algo estático. Não se deve perder a noção de mobilidade em tudo o que acontece. Positivo e negativo, negativo e positivo. É o fluir da vida. - Você teve família, mulher e filhos. Em dado momento houve a separação. Isso foi muito traumático?... É o que imagino, mesmo para um psicanalista. - Claro. Muito traumático. - Como foi a superação? - Da mesma forma que sobrevivi às torturas, durante a ditadura. - Ficaram sequelas? - Tenho um tremor nas mãos e deficiência visual. - Aquela coisa do risco, né? Você fazia um jornal com os frades, muitos foram presos e torturados também... Esse lado da denúncia e até do corpo a corpo... A questão do corpo como abrangente o levou a Reich? - Imagine um sujeito, no confessionário, o padre sem vê-lo dando conselhos. Jung passou a ter o paciente de frente e Reich pôs as mãos nele. Acredito na somaterapia e numa psicanálise de seis ou oito meses, no máximo. Ou a fera se mostra, ou se fica engabelando, anos a fio. - Numa feira recente de livros, sei que você pôs lá a coleção completa das obras de Freud. - O que fica no lugar?... - A feira não era só de livros. Havia pinturas também. Adquiri um quadro surreal. - Agora que você deixou o trabalho com grupos (sei que chama assim a sua psicoterapia), quem você é? - Um literato.
Escrito por Euclides Sandoval às 08h43
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“A ARTE NOBRE”, continuação. Agora é a parte 4 de CAVALO, ÁRVORE E PONTE. Aceita a proposta de Costamares, prossegue a dramatização do sonho. O outro assistente é o próprio Aldo – Sou o seu racional. Eu me chamo Ego. Percebo o mal mas não o enfrento. Meu forte é o verbal. Mas o corte do barbante com gilete me ameaça. Cristóforo, como o criador da cena – Foi por isso que ele se afastou. É. O Ego é frágil, só fala, não age. Ele foi para o panteão, cemitério dos grandes homens. A construção, na avenida – Com portas e janelas eu me abro para quem quiser. Cortinas me protegem dos incautos. Meu nome é inconsciente. Túnel – Minha semiobscuridade é o começo da individuação. Para além do panteão, onde estão enterrados os meus mortos, pode-se crescer. O panteão – Sou um desvão do inconsciente. Cristóforo – O que me aguarda através do arco desta porta? O panteão – É a esperança de encontro consigo mesmo. Cristóforo – Neste processo, eu sou o processo. Não conheço minhas próprias dimensões psíquicas. Mas vou sondando... O túnel escuro por onde passei me parece improvisado. A casa em construção, observei muito de passagem. Do túnel (de lona?) fui logo para aí, onde não pude permanecer. Logo antevi, mentalizando, o grande gramado de um campo de futebol. Minha esperança de liberdade e movimento, ar e sol... Mas a vegetação natural não era tão natural assim. Um gramado... Cercado? (Continua)
Escrito por Euclides Sandoval às 07h24
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"A ARTE NOBRE", continuação
CAVALO, ÁRVORE E PONTE 3 Costamares pergunta se Cris topa dramatizar o próprio sonho... já que sonho não se interpreta. Gesto de consentimento. Tenho liberdade de começar por onde me impulsiono. As coisas falam por mim e para mim. O cavalo – Simbolizo o Cristo. O luminoso e o terrestre se pertencem mutuamente. Túnel e panteão – Somos a sua trajetória e a esperança... O verde também é possibilidade de crescimento e diferenciação. O cavalo fala com o átrio – Estou num templo. A forma circular – Sou a totalidade. O átrio para o cavalo – Você é vigoroso. O moço que o conduz – Eu sou você (refere-se ao cavalo), sua parte mais profunda, seus instintos. O momento é de mudança. Cristóforo, na pele do moço – Aos poucos, melhora a minha forma de conduzi-lo. O cavalo – Agora, você me domina. O assassino, aparecendo – Estou aqui para cortar o seu processo de individuação. Cristóforo – Sei que estou vivendo uma aventura interior, repleta de possibilidades criadoras. Minha morte e a do cavalo são a quebra de um processo. Eu, com a pessoa que me acompanha, estamos de fora, assistindo à cena. Nem eu, nem quem está comigo, agimos para impedir o crime. Aldo, interrompendo – Sua morte é a morte de uma etapa. Trata-se de um rito de passagem. Pede desculpas a Cristóforo pela interferência no processo dramático. (Continua)
Escrito por Euclides Sandoval às 08h24
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"A ARTE NOBRE", continuação
CAVALO, ÁRVORE E PONTE 2 Sigo por uma avenida. Passo por construção, casa comprida, varanda, cortinas. Entro em longo túnel, cuja cobertura parece uma dessas lonas pretas de plástico. A sensação é de que atravesso chique clube esportivo. Saio num espetacular átrio, parte ainda em construção, espécie de templo ou panteão. Do outro lado, estádio de futebol e campo de brilhante verdura, a grama imagem só mental. Conto o sonho para meu amigo Aldo, ele o personagem que me acompanhava no episódio. - Sonho não se interpreta. Mas não podemos evitar que nos ocorram ideias e outras imagens. Os elementos do sonho dialogam entre si. Você se imagina falando na primeira pessoa. Topa? (Continua)
Escrito por Euclides Sandoval às 08h39
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De cinema a igreja (em Cravinhos)

Escrito por Euclides Sandoval às 08h36
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Vigília, na continuação do ato de sonhar
O prato da manhã, para Cristóforo, é escrever; o da noite, ler. A sesta favorece para que se veja filme sem a típica queda de queixo dos sonolentos. Para quem a própria formação veio do cinemão São Luiz, década de 40, século passado, todos aqueles preconceitos nascidos dos filmes americanos. Machismo e agressividade, espírito territorial e aventureiro dos faroestes e o patriotismo-xenófobo-sanguinolento dos soldados do eixo... Sangue, na época, sem a poesia de um Sam Peckinpah, e as torturas sugeridas, o que fomentava ainda mais a alma discriminativa.Agora, outra vida, também gerada pela idade avançada quando, mesmo sem querer, se pensa mais na esquina da Lua. Momento em que maior espiritualidade faz sentido. E, depois, algumas vivências metapsíquicas ajudavam na compreensão do como da vida. Assumir a literatura, um bálsamo. Outras formas de arte, ponte ligando pensamento e sentimento, consciência e inconsciente. Não faltam mestres, vivos e mortos, para nos ajudar na trajetória entre pessimismo e autorrealização.
Escrito por Euclides Sandoval às 08h27
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"A ARTE NOBRE" CONTINUA
Prometida uma entrevista com Aldo Costamares, grande amigo de Cristóforo, lembro o epitético "Cavalo e homem / alvos de si / pretos de dor". Livro se escreve. O papo com Aldo aguardará um pouco, provavelmente com a percussão de Milton Banana. CAVALO, ÁRVORE E PONTE Acordo. Penso: Vou sobreviver. Pensamento estóico enquanto lembro o ocorrido. O cavalo, daqueles de silhueta esguia, dois tons de cinza, crina caindo até os joelhos. Anda sozinho. Como num corte cinético, agora com cavaleiro. Moço, que parece inseguro sobre o animal. Depois, demonstra certa habilidade na condução do cavalo. Movimentação em ziguezague, passo, galope. Surge outro homem, também montado, com carabina em posição de quem vai atirar. Mais de uma bala atinge o moço, o que se percebe pelos tiros e pelo corpo que se dobra para trás e para a frente, o cavalo também atingido cai. Assistimos à cena, Aldo e eu. O matador, rosto avermelhado, redondo, sorriso malévolo. Aproxima-se de nós. Para, apoia a arma sobre a sela, ao que parece não tenciona nos agredir. Prende a carabina em alça do arreio. De uma pochete pega gilete e barbante. Não entendemos o que pretende fazer. Corta o barbante em dois pedaços. Respiramos aliviados quando o assassino se afasta. (Continua)
Escrito por Euclides Sandoval às 10h04
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Penso e sinto
Penso que se você não se sente bem onde está, querendo outro lugar, o problema é você. Torne, onde você está, cenoura, mesmo comendo carne.
Escrito por Euclides Sandoval às 11h06
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Para não explicar “A Arte Nobre”, contos e ensaios de Euclides Sandoval. O autor, à luz de Jung, trabalha com sonhos, o conceito de individuação e a lei da sincronicidade. Procura explicitar, de forma ficcional, o que só se revela pela busca de significados. Seu interesse é mais filosófico. Pedagogia reflexiva sem que se pretenda fechar conceitos. O mais importante são perguntas e os esquemas a serem abertos num processo dialético, sem síntese. O apoio aqui é de G.W.G. Moraes, Merleau-Ponty, Heráclito, Nietzsche, Lao Tsé, Noel Rosa. Neles, tudo se reduz a dois (dualidade em que a vida flui). O terceiro elemento pode ser válido na análise estética. O passo incluso na trajetória proposta é o da educação do sensível, na linha de João-Francisco Duarte Jr. Atitude costumeira disrítmica, o autor adentra o esconso da memória e desencava lembranças daquilo por que nos batemos – o meio onde se trabalha para sobreviver. O que aliás costuma ter muito pouco a ver com autorrealização. Talvez num impulso catequético a gente pense que deve satisfações ao social que nos paga e precisa se perceber nas cores as mais reais, segundo a vã sabedoria. É quando entra em especial “A Dramática do Trabalho” que poderia ser chamada de “A Dramática do Poder”. Ela acaba por iniciar, no blog “ipansotera3”, as postagens do livro. O personagem Hamlet aparenta loucura, respondendo sobre o que estava lendo: “Palavras, palavras, palavras”. Eu diria: “Sonhos, sonhos, sonhos”. Cristóforo, sentado diante da grande janela, vitrine de turbulenta megalópolis. Às portas de uma depressão, denúncia de um olhar vago. Fora demitido. Agora, num ocaso de santa pimenta, escreve.
Escrito por Euclides Sandoval às 10h23
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